terça-feira, outubro 31

no meu lugar preferido: eu vi, senti e vivi

No meu lugar preferido vi relações a começarem e a acabarem; vi crianças a quererem ser crescidas e adultos a serem crianças; vi flores a nascerem e folhas a cair; vi o sol a acordar e a lua a deitar-se - naquelas noites mágicas em que, debaixo das estrelas, a minha almofada era o teu colo -; vi idosos a darem a mão e jovens a fujirem do amor; vi casais a fazerem as suas promessas eternas e vi mentiras a cairem aos pés dos mesmos; vi abraços de despedida e abraços de chegada; vi saudades sentidas e apertos de mão insignificantes; vi traições e vi romances puros; vi lágrimas de abandono e lágrimas de felicidade; vi casamentos e divórcios; vi corações quentes e corações frios.
Encontrei-me no meio de tudo aquilo que acontecia à minha volta, até que me vi em todas aquelas pessoas e situações, vividas ou não mas eu estava lá, sempre estive. Fui e continuarei a ser espectadora de todos eles e nenhum deles me vê ou sabe até da minha existência. Mas ali é o meu lugar preferido. A vida acontece em pequenos lugares. E a vida pode ser muita coisa. Tens medo? Tens medo de viver e reviver tudo o que já passou por ti? Tens medo de já não saber como amar, como sentir a saudade bonita, como sentir que o abraço já não te sabe ao mesmo? Tens medo de mudar de lugar? Foda-se foi a minha resposta. E foi a resposa perfeita de quem nem sequer pensou que se pudesse sentir medo nestas coisas. Tenho medo que as palavras acabem, tenho medo de não saber como te escrever mais. Medo que este meu lugar preferido fique vazio e que toda a vida que eu criei nele seja esquecida. Medo que o amor se perca nas linhas tortas que desenham em corpos alheios.

sábado, outubro 28

viver depois de ti

O tempo ultrapassa os ponteiros do relógio e leva as merdas que aprendi a gostar: os dias felizes que me fizeram sentir viva, as pessoas que amei e até aquelas que podiam ter ido mais cedo, a bebedeira que me fez esquecer, o cigarro que me fez lembrar. Mas permanece tudo. Em mim, nos lugares e em ti. Tudo o que ele decide levar, continua agarrado a mim. Não porque sou obrigada a viver com, mas porque não faria sentido viver sem. 
Gosto de memórias e gosto de sorrir para elas. Há quem me diga que não vale a pena alimentá-las. As memórias não se alimentam. As memórias são quadros que foram pintados por nós ou por quem nos ensinou a ser pintor do nosso tempo. Um tempo que por mais incompreendido, ou não, acabou por passar à frente dos nossos olhos. E teremos que saber viver com isso, com as voltas que nos deixam tontos e enjoados, com a rapidez do tempo que nos derrubou. 
A nossa única solução é viver, é lembrar e esquecer, é ir e voltar - acabamos sempre por nos esquecer de alguma coisa, nem que seja de um abraço que ficou fora da nossa bagagem - e ir novamente. Ninguém me ensinou a viver depois de ti. Mas ensinaste-me que o maior segredo de um amor que acaba por morrer, é deixá-lo permanecer em silêncio dentro de nós. Guardá-lo com carinho. E saber viver com isso, e depois disso.